segunda-feira, 22 de abril de 2013

Interminado

“Um gole de vida, por favor” – Pedi ao reflexo no espelho. À mim, que estava ali, inerte, refletida apenas na forma imagética de um ser humano.  Mirando os próprios olhos e os vendo apenas como pupila, íris, cílios. Que permite detectar a luz e transformar a percepção em impulsos elétricos. Para olhar novamente e mirar o vazio.
Já dizia Baudelaire para nos embriagarmos. De vinho, poesia ou virtude. Mas é necessário sentir o primeiro gole, seja do que for: do vinho, da poesia, da virtude, de porra, de oxigênio, de instante, constante, incessante. Desde que desça devagar, percorrendo e queimando cada centímetro de carne pelo corpo. É preciso se deixar possuir por este pequeno delírio.  Toda pessoa traz em si uma dose de ópio natural incessantemente secretada e renovada, mas tudo que eu podia sentir era o vazio e tudo que eu podia ouvir eram as batidas do meu coração, pulsando apenas por estar vivo. Mas seria mesmo de vida? Ou apenas de sangue? 
Queria irrigar o corpo de alma, mas era apenas isso o que tinha: sangue.

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